terça-feira, 27 de maio de 2014

As rezenhas de um país chamado Brasil

Após muito tempo sem relatar nenhuma experiência ou simples pensamentos em meu blog, volto a escrever, pois as palavras entaladas em minha garganta já não me deixam respirar. Percebi que este blog tem a enorme função de além de dividir e registrar experiências, a de desabafar e aliviar o peso dos meus pensamentos. Então, vamos lá!

 Desde de 2008 até 2012, estive em diferentes países, trabalhando, viajando, voluntariando e o mais importante, aprendendo sobre a vida, como meus posts mais antigos podem detalhar.

 Ao final de 2012, junto com minha noiva Anna, que conheci em Michigan, em uma destas experiências internacionais, decidi voltar para o Brasil e encarar aquele sentimento de retrocesso que muitos passam ao voltar ao seu país origem após muitos anos fora.

Por alguns motivos tomamos esta decisão, família, amigos, clima, nova condição econômica, entre outros, afinal somos e sempre seremos Brasileiros além de tudo.
Confesso que para mim esta decisão foi bem mais difícil de ser tomada do que para Anna que já há tempos sentia muitas saudades de casa. Algo que me ajudou a optar por voltar foi saber que eu tinha outra opção além da minha cidade natal, São Paulo, onde eu realmente não queria voltar a viver, poderíamos optar em morar em Recife e foi o que fizemos. Ou seja, passei a ver a volta ao Brasil por outro ângulo e comecei a encarar como mais uma nova experiência, morar em um lugar novo, cidade diferente, começar do zero novamente. Neste momento minha mente se estimulou a encarar o plano e por isto voltei.

Muito bem, fizemos as malas, curtimos os últimos dias das melhores maneiras possíveis e voamos, “from New York all the way back to Brazil”!
Revemos a família, passei um bom mês em São Paulo ao lado dos meus pais e amigos e depois viemos para Recife, em busca de novos desafios.

Como já tinhamos planejado alguns investimentos em Pernambuco, chegamos já com o plano de administrar os que já haviamos plantado. “Plantado” é de fato a palavra certa para expressarmos estes investimentos, isto mesmo, plantamos. Junto com meu sogro, agricultor há anos, fizemos um plantio de Inhame e ai começou a minha mais nova experiência, virei Agricultor! Isto me possibilitou comceçar a enxergar a sociedade de uma maneira bem diferente de tudo que já tinha experimentado.

Com a plantação no interior do estado de Pernambuco, a minha administração era feita a distância desde Recife, com visitas semanais. A vida em Recife estava tranquila, buscávamos outras opções de renda, mas com o tempo comecei a ver que o mercado de trabalho no país, ainda é desanimador. Baixos salários para muita capacitação exigida, pouco transporte público para muitos trabalhadores como acontece na maioria das grandes cidades, e muitos carros para poucas ruas, ou seja, o caos instalado ao qual os brasileiros são obrigados a fazer parte diariamente para garantir o pão de cada dia, e que se faça clara esta sentença: “O Pão de cada dia”, pois com todo este caos e dificuldades, o que a maioria dos trabalhadores brasileiros leva para casa é apenas o pão do dia e não o extra para o amanhã, sobrevivem ao invés de viver! Infelizmente.

Continuamos a nossa vida na medida do possível sem a certeza de que encontraríamos um trabalho digno, com um salário justo, pouco “stress” e que tivessemos prazer em desenvolvê-lo, ou seja, o emprego impossível no Brasil.

Hoje, as pessoas escolhem uma das opções, ou ganhar bem, ou não ter “stress”, ou fazer o que gosta...assim fica difícil.

Após meses em Recife e se adaptando novamente a realidade social e política Brasileira, decidi partir para outra grande experiência e novamente mudar a minha vida. A decisão foi morar na fazenda, no interior de PE. Qualidade de vida foi a palavra chave!

Vim pela primeira vez na vida fazer parte da zona rural brasileira. Moramos a 800 metros acima do nível do mar, na zona rural de uma pequena cidade do agreste pernambucano, muitos dizem brincando que nos escondemos, eu digo que de fato nos encontramos. A paz, a tranquilidade, o ar puro, o canto dos pássaros e o som do vento batendo em toda fauna que nos cerca é indescritível. A simplicidade das coisas, a vida sem complicações, tudo isto traz o sentimento de liberdade e independência do mundo material e consumista que estamos sempre implantados.

A vida rural me traz ensinamentos diversos, inclusive diferentes dos que tive na África ou em outros cantos. A natureza é realmente uma mãe que te ensina, educa e diz por onde ir, é impressionante a vida deste ponto de vista.

Como disse mais acima, passei a enxergar as coisas de outro patamar. Os valores mudam e um tênis caro, passa a valer menos que a possibilidade de se caminhar descalço sem medo, simplesmente por ter vontade. Uma semente plantada e que brota, conta mais sobre a nossa existência ou sobre o nosso planeta, do que qualquer filme de televisão. A vida no campo e a Agricultura tem me mostrado como de fato a vida na terra deveria ser, para que todos pudéssemos ser auto-sustentáveis, cultivar o próprio alimento, viver saudavelmente, respirar o ar puro dos campos, deitar em uma rede durante a tarde, ouvir os pássaros e o mais importante de todos os benefícios, se conectar com a natureza, de corpo e alma, sentí-la e deixá-la sentir-te, respirá-la, escutá-la e claro, respeitá-la. É claro e evidente para mim que a natureza não pode ser controlada e nem deve. Toda a intromissão humana quanto ao seu ciclo natural é desastroso e imprudente, mesmo que os resultados não sejam imediatos, mas a longo prazo as consequências serão gritantes. Isto é que posso comprovar com meus próprios olhos.

A vida no campo também me trouxe uma perspectiva diferente sobre a sociedade civil do qual fazemos parte. A área urbana, ao contrário da área rural, é sempre vista, do meu ponto de vista, como parte mais importante para um desenvolvimento rápido e crescimento econômico, tanto de uma visão civil quanto política. As grandes cidades são vistas como fonte de emprego, alta rentabilidade, prospecção de crescimento, centro de soluções ou até mesmo como ambiente realizador de sonhos. Mas ao final das contas, o que vejo mesmo é uma sociedade perdida, que não sabe exatamente o que busca, vivendo um falso conto de fadas. Nas grandes cidades, as pessoas correm dia após dia de um lado para o outro sem ter tempo para pensar ou até mesmo para oxigenar devidamente seus cerébros, correm atrás de suas sobrevivências e se esquecem de cuidar de suas vivências. As experiências e oportunidades passam por seus olhos sem que sejam notadas e assim a vida vai sendo desperdiçada. Já na área rural, sentimos a vida conversar conosco e nos dizer quais são os próximos passos, sem pressa. Podemos apreciar o orvalho das plantas a beira da estrada, ao invés de passar com pressa e inundá-las em um mar de poeira. Aqui se produz o que o mundo come e com muito prazer e amor, mesmo que nunca sejamos lembrados por isto, pois acredito que a maioria dos consumidores nos mercados pensam que a comida é feita lá, pois por incrível que pareça, a área rural nunca é lembrada como fonte de alimentos ao mundo, mas pelo contrário, ela é esquecida por sua simplicidade e “ignorância”. É muito triste constatar estas informações, mas ao mesmo tempo é muito prazeroso evoluir minha mente a partir deste entendimento. Vejo descaso das autoridades políticas também. A área rural é absurdamente esquecida, mesmo que sustente a região urbana, com empregos, alimentos, economicamente direta e indiretamente, como é o caso de onde vivo. Sem a área rural não haveria urbana e ainda sim há o descaso. É assustador.

Desde que me dedico as estas novas atividades, tenho alimentado uma vontade crescente de mudar a situação de áreas com tanto potencial, como onde vivo hoje. Não quero trazer indústrias, aumentar o comércio e dobrar ou triplicar o caixa da prefeitura com falsos desenvolvimentos ou mesmo entupir a área de gente até que se tornem “urbanizadas”. Bem pelo contrário. Quero colaborar na conservação (cultural, histórica, natural...), manutenção e desenvolvimento sustentável de tais áreas. Quero colaborar na tarefa de fazer as pessoas e autoridades governamentais entenderem a importância destas áreas para nossa sobrevivência e para que preservá-las e porque manter e cuidar do “jeito do campo”.

Simplesmente porque este é o segredo mais bem guardado até hoje, aqui está a qualidade de vida que todos buscam, mas que ninguém tem tempo de enxergar. Mas aos poucos os olhos vão se abrindo e as mentes entenderão que aqui está a vida, como diz a frase mais famosa dos Costa Riquenhos, “Pura Vida”. E é entendendo, preservando e em meio a natureza que ela de fato existe!

Muito luz e paz!
Como dizem o Recifences: “É muita rezenha mesmo, viu!” :)

Felipe Gomes
26 de janeiro de 2014

Um comentário:

Unknown disse...

Nossa man! fuçando aqui achei seu blog, que era por onde eu acompanhava suas aventuras e doideras hahaha... Nostálgico!

Abraços meu brother!

Ass: Gui vagabonds rs