
(no lombo do caminhão...hehehe)
Africa
Mantenho-me acordado!
Enquanto muitos ao meu redor tentam me fazer cair profundamente em um estado de contentamento surreal, eu me mantenho acordado! Vejo os erros e agora me movimento!
É hora de ação, meu período de análises já me cansa a alma e me sinto pronto para contra atacar, com a mais branca das armas, ou seja, soluções!
Meu movimento é discreto na África, mas pode ser potente. A discrição é essencial por aqui, algumas pessoas são despreparadas para mudanças e a cultura local às vezes cria barreiras que podem quebrar qualquer bom processo. Por isto, discrição e ação!
Os vilarejos que são cobertos pelo programa TCE ao qual faço parte, situam-se na região de Caprivi que poderíamos dizer que é um “estado” da Namíbia, o mais longínquo quando comparado aos outros. Caprivi é uma divisão muito grande e por isto em alguns momentos torna-se impossível visitar algumas vilas, pois às vezes são necessários três dias para que eu possa ir, trabalhar por um dia e voltar. Isto é muito complicado!
Porém, sempre procuro novos desafios, descobri que consigo acelerar o meu processo de desenvolvimento pessoal quando consigo obter o sucesso em grandes desafios. Por isto estou começando a analisar localidades onde as pessoas nunca vão visitar os oficiais que trabalham por lá, o que gera falta de controle, menos produtividade e desmotivação em alguns casos por parte dos oficiais de campo. Esta análise tem por objetivo, concluir a visita, trazendo de volta o controle sobre certas áreas e ajudando os oficiais a desenvolverem melhor seus campos.
Já venho pensando nisto há mais ou menos duas semanas quando assumi o desafio de chegar a um lugar que todos acreditam ser quase impossível de chegar pela manhã, pois não há transporte, porém, naquele dia acordei inspirado e decidi que simplesmente chegaria lá, e cheguei! Após três caronas na beira da estrada, tendo assim a oportunidade de ter um dia muito produtivo e inédito. A oficial de campo me recebeu expressando muita alegria por eu ter conseguido visitá-la e conseguimos trabalhar muito bem. Foi o bastante para eu decidir que não haveria barreiras em meus caminhos, vou onde tiver que ir e chegarei!
Na última semana assumi um desafio ainda maior, ir a um lugar aonde realmente ninguém nunca vai, mas aonde as 9:20 da manhã, após três caronas, eu realmente cheguei! Foi muito impressionante o quão longe era, mas o mais impressionante foram as pessoas especiais que me deram carona, a primeira pessoa foi o Bob, nascido no Zâmbia, tinha acabado de cruzar a fronteira e passava por Katima no caminho para Oshakati com seu Jeep luxuoso. Parou no posto de gasolina e simplesmente respondeu que claro que me ajudaria, após eu pedir a carona. Ele passaria próximo de uma saída que dava acesso a outra estrada e que significava um quarto do caminho para mim. No caminho, conversamos, contei a ele o que fazia e ele me contou que tocava em concertos que apóiam o controle do HIV, achei muito sensacional aquilo, o cara realmente era gente boa, e o mais engraçado, o inglês dele era muito americano, tanto que tive que perguntar a ele se ele era realmente do Zâmbia, ele respondeu que sim, interessante.
Bom, após o Bob me contar que na copa do mundo com certeza ele vestirá uma camiseta do Brasil como ele fez na última copa, ele me deixou no local da minha próxima carona e perguntei à ele se podia ajudá-lo com algum dinheiro, pois aqui não existe carona “ free”, ele apenas me respondeu que eu já faço demais pelo mundo e que ele estava agradecido. Foi realmente bom ouvir aquilo, meu dia realmente começou bem e a próxima carona não demorou a chegar, acredito porque eu realmente estava esperando um dia positivo.
A força do pensamento e o acreditar, realmente podem tornar tudo possível!
A minha próxima carona foi na traseira de uma pick-up que quando se engatava a segunda marcha quase parava, pois por algum problema de vela ou seja la o que era, engasgava muito e quase explodia... Rsrs. O motorista era um senhor muito humilde que levava ao seu lado um rapaz que parecia trabalhar com ele. Ele aceitou me deixar em seu caminho que seria metade do caminho para mim. Fizemos uma parada rápida em uma vila no caminho para que ele pegasse alguma ferramenta que precisava e minutos mais tarde deixou-me na junção com a próxima estrada e não aceitou o dinheiro que lhe ofereci pela carona, fez questão de recusar, o que me fez aumentar e muito a minha alegria, não porque salvei alguns trocados, mas porque apreciei muito a humildade daquele senhor e a boa vontade de ajudar que estava escrita em sua testa, foi muito bom!
Pude ver a pick-up indo embora, olhei para os lados, para frente e para trás e descobri que estava realmente no meio do nada, nada via. Mas nem me preocupei, achei uma sombra e uma pedra, sentei-me e esperei o próximo movimento de pneus sobre a areia que escurecia a vista ao ser jogada ao vento.
Logo vi um jeep de uma empresa de segurança vindo e não perdi tempo em acenar muito para que eles parassem. Disse que precisava ir para Muketela e o motorista me adiantou que poderia deixar-me la, mas que era muito longe e ele teria que cobrar algum dinheiro, não me importei, apenas chorei o valor e contei-lhe que era voluntário por isto pedia carona. Ele abaixou o valor que já era muito abaixo do que eu esperava pagar e lá fomos nós. No caminho o motorista demonstrou admiração pelo meu trabalho e se disse agradecido pela minha presença no país, pedindo para que eu ficasse mais tempo, pois ele realmente acredita que é importante o trabalho de pessoas de fora, foi um papo muito interessante e mais uma boa experiência!
Saltei do carro exatamente no destino que pretendia, foi perfeito. Escola de primeiro grau de Muketela, onde Simuel (oficial) me disse que seria o melhor lugar para nos encontrar.

(Simuel e eu)
Quando entrei na escola, logo vi todas as crianças do lado de fora e vi Simuel no meio delas. Percebi que seria realmente um dia interessante.
Simuel tinha preparado uma aula sobre HIV/AIDS para as crianças e eu cheguei exatamente na hora de começar a aula.
Noventa e quatro crianças sentadas embaixo das árvores, organizadas por tamanho e com os olhos enormes ao me verem. Me olhavam tanto, que por um momento pensei que atrapalharia a aula estando ali, pois a atenção das crianças estavam voltadas para mim de uma maneira fixa, quando os olhares dispersavam eu não podia cruzar a perna que todos olhavam de volta para mim. Foi uma situação muito prazerosa e ao mesmo tempo um pouco desconfortável, mas mesmo assim muito boa! Rsrs.
Simuel apresentou-se, me apresentou e fez a introdução do tema. Tudo na língua local, mas eu podia captar algumas palavras e gestos e ao mesmo tempo ele me traduzia algumas partes.
Ele deu a aula, todos participaram e pareceram interessados no tema, mesmo os mais novinhos. Ao final, Simuel me perguntou se faltava algo a falar, como ele deu a aula na língua local, apenas confirmei o que tinha entendido da aula e depois acrescentei algo sobre a transmissão do vírus via sangue. Fizemos a brincadeira "dança das cadeiras com as crianças" e todos se divertiram muito, mesmo sendo apenas uma simples brincadeira. O mais interessante é que o Simuel aprendeu a brincadeira em um treinamento que demos aos oficias e agora ele aplica isto no campo e de uma maneira muito eficaz, é bom ver o resultado de algo que você acredita.
Ao final de tudo na escola, tirei uma foto com todos os presentes e tive que organizar uma “big” fila para que as crianças pudessem uma por vez olhar a foto na câmera. Rsrs.

Após todo o trabalho, como eu estava distante, tinha que voltar um pouco mais cedo do que o normal para casa e fui para a beira da estrada. Simuel esteve lá comigo até que eu conseguisse a carona e conversamos muito, ele me disse que gostaria muito de me levar na sua casa para conhecer a sua família e me conceder um almoço, mas que sua casa era muito longe dali e eu não conseguiria voltar, me pediu desculpas pela falta de cordialidade. Eu apenas disse a ele que realmente não estava ali para isto e que ele não se preocupasse com comida, pois tinha uma bolacha na mochila... Rsrs.
Pude realmente ver a vontade dele em me receber. Conversamos mais um pouco e ele me disse algo que me surpreendeu, disse que ele já pode sentir que quando eu for embora, todos sentirão muito minha falta, pois eu sou diferente dos outros! Isto me deixou muito emocionado e comecei a pensar sobre a falta que esta África fará para mim também...
Um dia completo!
São oportunidades, situações e emoções como estas que me empurram para frente cada dia com mais força, possibilitando que eu acorde todos os dias cedo, tome um banho gelado cada dia mais refrescante, tome um copo de leite puro cada dia mais gostoso e deixe a minha casa a caminho de um mundo melhor!
Desejo a satisfação que sinto agora a todos vocês!
Abraços enormes.
Felipe Gomes.