segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

22 de Dezembro...


(igreja germânica em Windhoek, capital da Namíbia)

No dia 22 de dezembro acordei às 7 horas da manhã, tomei café, coloquei algumas roupas em minha mochila e tudo que fosse necessário, me despedi de meus amigos e decidi ir para a estrada pedir carona para ir para Windhoek, a capital da Namíbia.
A idéia era chegar a Windhoek e de lá decidir o meu próximo destino.

Felizmente consegui uma carona em Katima até a próxima grande cidade Rundu, na verdade, o motorista iria até Grootfontein que fica algumas horas depois de Rundu, mas como eu não estava pagando nada ele me disse que me deixaria em Rundu, para mim já era ótimo.

Porém, durante o caminho, conversando com o motorista que se chamava Shono, tive a oportunidade de explicar o que eu fazia no país e com o decorrer da conversa acabamos nos tornando amigos. Durante a viagem conversamos sobre tudo e quando chegamos a Rundu ele parou o carro para algumas pessoas que iriam ficar por lá e eu nem me mexi, só esperei ele continuar viagem e no final das contas ele me levou para Grootfontein o que quebrou o maior galhão! Hehehe.

Em Grootfontein na beira da estrada estava difícil de conseguir carona, poucos carros estavam indo na direção de Windhoek e a noite estava chegando, durante alguns minutos caiu uma chuva fortíssima e fiquei no posto de gasolina conversando com um Zambiano que vive aqui na Namíbia e estava esperando um de seus amigos caminhoneiros que estava indo para o Zâmbia passar e apanhar algumas mercadorias que ele estava mandando pra la. Já tarde, vi uma mini van vinda de Rundu parando para tentar apanhar passageiros para Windhoek, porém, não havia ninguém por lá e a mini van estava vazia, não perdi tempo e convenci o motorista a me levar de graça para lá.

Viajamos durante a noite e às 4 horas da manhã paramos o carro para dormir um pouco.

Após uma bela e desconfortável “durmida”, chegamos mais ou menos as 6 da manhã em Windhoek.

Dentro do ônibus encontrei um rapaz que ao descobrir que eu era Brasileiro se empolgou demais e conversamos a conversar sobre diversas coisas da vida no caminho até Windhoek, ao chegar por lá já éramos bons amigos.

Ele se chama Theodor e tem uma história muito interessante de vida. Perguntei a ele o que ele faria em Windhoek já que ele me disse que estava vindo de Rundu. Ele me respondeu que estava indo buscar o seu novo passaporte que o governo emitiu para ele. Achei interessante o fato de o governo ter solicitado a emissão do passaporte dele e perguntei qual era o plano. Ele começou a me explicar que era graduado pela universidade da Namíbia em Windhoek, em um curso de 4 anos voltado a saúde, era algo como enfermagem. Após isto, ele recebeu convite para trabalhar no maior hospital da Capital, porém, ele recusou e foi trabalhar na pequena clínica no vilarejo onde mora com o intuito de ajudar no desenvolvimento da comunidade que é aonde ele continua a trabalhar. E quanto ao passaporte, ele foi apenas buscar em Windhoek, a capital, pois ele conseguiu uma bolsa de estudos na Universidade da Rússia em medicina e estudará lá a partir de setembro por 6 anos. Isto tudo através do governo da Namíbia que tem uma relação ótima com a Rússia e é claro devido aos bons resultados que ele apresentou. Quando ele terminou de me contar, fiquei apreciando a informação por um bom tempo, processando o tamanho da oportunidade que ele estava agarrando. Me bateu um orgulho imenso de ter conhecido Theodor, um namibiano diferente, um cara realmente especial. E para completar ele me disse que quando terminar a Universidade na Russia, ele já tem planos de voltar para o Vilarejo dele e trabalhar em prol da comunidade. Isto realmente me fez enxergar o lado mais importante das pessoas, o lado Humano! Em nenhum momento ele citou planos para ser rico ou coisas fúteis, a idéia dele é ser um ótimo médico para ajudar pessoas, simplesmente isto. E tenho certeza que ele será uma pessoa realizada na vida. A única coisa que ele me contou que o faria querer dinheiro é a sua vontade de conhecer o Brasil! E disse a ele que “nada é impossível” e logo logo isto será apenas uma das coisas que serão possíveis na vida dele!

Andamos pela Capital durante toda a manhã juntos, pois ele conhecia todos os lugares e resolveu me mostrar todos os lugares interessantes da cidade!


(Eu e Theodor em Windhoek)

Ao mesmo tempo íamos discutindo e ele tentava me ajudar com meu plano de viagem, pois até então, eu ainda não tinha decidido para onde ia. Fomos ao escritório da empresa de ônibus mais famosa na Namíbia, intercape. Eu queria ver o preço da passagem para Cape Town, pois minha amiga Kait (americana) estava por lá e tentando me fazer ir. Eu estava quase convencido e decidir ver o preço do ônibus. Próximo ao escritório da companhia de ônibus há um grande Shopping com tudo do bom e do melhor, decidimos passar lá e dar uma olhada nas lojas, pois Theodor como bom estudante e sem dinheiro, nunca tinha estado nas grandes lojas do grande Shopping, mesmo tendo morado por 4 anos na cidade. Agora com emprego e dinheiro ele decidiu que gastaria as economias com presentes de natal para a irmã e a mãe que moram na vila com ele.


(Feirinha na Independence Avenue, centro de Windhoek)

Fomos a uma grande perfumaria onde ele comprou um secador de cabelo para a mãe dele e um kit de perfume para a irmã, ele estava muito feliz, quando fomos pagar o caixa da loja estava um pouco cheio e a fila longa, vi onde era o final da fila, mas Theodor um pouco perdido na loja grande, pegou outro caminho e acabou saindo no começo da fila sem querer, neste momento foi quando tive o meu pior momento nas festas.

Um velho branquelo com ar de patrão viu Theodor chegar na frente de sua esposa e ao invés de tentar alertá-lo de que ele estava errado, ele foi até o Theodor e deu um esporro ao mesmo tempo empurrou com uma cotovelada o menino que mal sabia onde estava...a minha vontade era de socar até a morte o velho, pois era claro o racismo ali apresentado, devido a cor do Theodor o velho supôs que ele estava realmente furando a fila...olhei nos olhos do Theodor na mesma hora e pude ver que ele se colocou na posição de culpado na mesma hora, abaixou a cabeça e perdeu o rumo...eu me aproximei, me contive para não perder a paciência com o velho, pois o mais importante era acolher o Theodor que se calou. O Chamei e fomos ao final da fila juntos. Não comentamos o acontecido e em minutos mais tarde, após algumas piadas e descontração ele já estava rindo novamente e apreciando as novidades do Shopping, porém, eu carrego isto até hoje comigo, choro ao ter que descrever isto aqui, pois é algo que não consigo entender de maneira alguma, foi uma maldade das maiores que já presenciei...Racismo é um absurdo!

Bom, depois do episódio continuamos andando pelo Shopping e fui aprendendo cada vez mais sobre a inocência de um menino que em 6 anos será com certeza um médico formado e conhecedor do mundo, mas que quase gritava de tanta emoção ao ver existem televisões de 42 polegadas ou ver que em uma mecânica eles possuem elevadores que levantam os carros para que possa ser mais fácil de se arrumar embaixo deles. Ele estava espantado com tais coisas o que me fez ficar emocionado ao lado dele e aprender muito mas muito mais sobre quão simples é ser feliz! Theodor é um amigo que fiz e faço questão de manter o contato com ele, estou inclusive planejando uma visita à vila dele que fica a mais ou menos 3 horas de carro de Katima Mulilo.


(Vista próximo do centro de Windhoek)

Mais ou menos ao meio dia, ele foi à estação de vans para voltar para Rundu.

Após isto resolvi que iria para Cape Town, mas precisava falar com algumas pessoas antes e meu celular estava sem bateria, fui ao centro de informação para turistas de Windhoek e consegui recarregar meu celular, enquanto eu estava lá, encontrei alguns turistas e até fiz amizade com uma Coreana do Sul, andamos pela cidade para resolvermos algumas coisas em comum, como comprar as passagens do ônibus que ela também precisava comprar, mas para outro lugar e depois fizemos compras para as viagens em um mercado barato, foi bacana, novos bons amigos é sempre bom!

Às 7 horas da noite deixei Windhoek a caminho de Cape Town, com previsão de chegada as 13:30 do outro dia, atravessando todo o sul da Namíbia até a África do Sul, onde atravessei do norte ao sul também.


(Intercape - Ônibus que peguei para Cape Town - Africa do Sul)

Obs.: No ônibus Intercape, eles rezam pela TV antes de começar a viagem e passam "Canal de Deus" (God Channel) durante quase toda a viagem.

Confissão: As montanhas do sul da Namíbia onde há grandes desertos, são fantásticas!

Cape Town...

Obrigado!

Um grande abraço!

Felipe Gomes.

Um comentário:

Raquel disse...

Theodor nao será esquecido no natal,diante de tamanha falta de humanidade e ignorância.
Será que algum dia seremos realmente livres de preconceitos?
Vc é realmente incrivel em situações inusitantes.
Mais uma vez surpreendendo!!
Abraço bem apertado