
Andei pensando como é impressionante o número de pessoas especiais que passam pelas nossas vidas. E o número de pessoas que nada acrescentam as nossas vidas também.
Nesta semana tivemos a visita de uma voluntária Húngara que desenvolve o projeto na região de Oshakati já há cinco meses. Ela passou a semana inteira conosco, em um período que chamamos de investigação. A idéia dela foi conhecer a nossa região, estudar como o projeto esta sendo desenvolvido por aqui e ao mesmo tempo pesquisar sobre outras organizações e suas ações na região.
(Katya indo embora de carona)
Seu nome é Katya e tivemos a oportunidade logo nos primeiros dias de trocar muitas informações e discutir diversas idéias que venho pensando ao decorrer dos dias. Ela pareceu mais empolgada que eu quanto às idéias e me disse que nesta semana aqui gostaria de andar comigo pela comunidade para que começar a dar forma as minhas idéias, pois seria um grande prazer a ela me ajudar a manter esta motivação e esta vontade de fazer as coisas que neste momento realmente expresso. Digo “neste momento”, mas pretendo ter forças para correr atrás do que for necessário para ajudar, até o meu último dia na África. E farei o possível.
A Katya realmente foi importante no decorrer da semana e no domingo quando ela partiu de volta a divisão dela percebi quanta motivação pude captar com a sua presença. Fico feliz porque foi especial.
Refletindo sobre esta experiência, comecei a perceber que algumas pessoas passam pelas nossas vidas e sem importar o tempo que elas permaneçam presentes, sempre deixam algo de importante para ser levado a frente e utilizado.
Às vezes uma ação, uma conversa, uma palavra ou mesmo um gesto, podem nos trazer um novo conhecimento ou uma nova percepção sobre as coisas.
Há minutos atrás, eu estava lendo o livro, “O Caçador de Pipas”, e refletindo sobre a história deste livro que é uma lição de vida e que em cada página você pode identificar ações e comportamentos que sendo bons ou dos piores, sempre haverá uma lição para tirar e algo novo para refletir e em alguns casos mudar em seu próprio comportamento, se você ainda não leu este livro, não perca a oportunidade quando possível. Eu tive o privilégio de ganha-lo assim que deixei o Brasil iniciando esta minha nova vida, de uma pessoa que foi e sempre será muito especial na minha vida, minha amiga Rady. Ela, que me demonstrou o verdadeiro significado de muitas palavras e que mesmo depois da minha partida, agora lendo este livro que não tive a oportunidade antes, vejo que ela continua me ensinando.
Tenho muitos outros exemplos que carrego comigo, acabei de ler um outro livro bárbaro também que se chama “O vendedor de passados” de José Eduardo Agualusa, que realmente me trouxe muitas reflexões e flutuantes palavras que pesam no peito quando sugadas de nobres páginas beges de papel.
Este livro eu ganhei de meu amigo Régis que mesmo com tantos e tantos imprevistos na vida e coisas para se preocupar, conseguiu me presentear no Brasil, três dias antes de eu vir para a África. Acrescentando em minha vida novas palavras e pensamentos, porque não sentidos!
Andando pela rua em uma tarde ensolarada e seca de Katima Mulilo, um senhor de bicicleta me parou e pediu um minuto para conversar, dei-lhe atenção com certeza e ele começou a se desculpar, pois gostaria muito de ter participado do nosso evento de bicicletas em prol dos órfãos, mas, porém, na hora em que todos partiram com suas bicicletas a dele infelizmente quebrou. Eu realmente me lembrei dele no evento, pronto para fazer parte da mobilização. Mesmo com a sua simples bicicleta, carregando consigo um olhar cansado e demonstrando nos olhos negros toda falta de recursos para viver de uma maneira suficientemente necessária, ele estava lá e feliz por isto.
Naquela tarde ouvi desculpas de um homem que tudo que quis em uma noite de sábado, foi pedalar por órfãos de uma cidade vizinha e naquele momento se sentia culpado por ter uma bicicleta simples que não suportou a necessidade do momento. Posso dizer que foi, lindo, triste, comovente, realístico e principalmente proveitoso aquele momento, até agora não esqueço o rosto deste senhor e as lições que tirei daqueles dois minutos que conversei com ele.
Ganhei outra pessoa especial na minha vida também nos últimos dias que estive caminhando pelos vilarejos, não sei seu nome, sua idade, dele nada sei, mas em um breve momento vi uma ação desta pequena pessoa que também me fez refletir sobre muitas coisas e principalmente sobre qual é o verdadeiro sentimento que um ser humano deve ter pelo outro.
Um menino que eu diria ter no máximo quatro anos, pegando no colo uma bebe que diria ter um ou dois anos, realmente não tenho muita idéia da idade. Este menino viu a pequena irmã começar a chorar, não sei se de fome, cede, ou dores e sem pensar duas vezes correu ao lado dela e a pegou no colo, balançando-a como se fosse o pai da criança e acalmando-a com a técnica de uma mãe profissional. O detalhe mais impressionante é o tamanho destas crianças, eles eram quase do mesmo tamanho e mesmo assim o garotinho se sentiu na obrigação de acalmá-la no colo. Isto realmente foi um capítulo do livro lições da vida que eu decorei. Lindo demais!
(menino com a irmã no colo)
Bom pessoal! Acredito que todos nós temos pessoas especiais em nossas vidas, seja por um segundo ou pela vida inteira, pessoas que podem em um único gesto mudar conceitos, e na maioria dos casos naturalmente, estejam atentos ao seu lado pode haver algo ou alguém para lhe ensinar pequenas coisas que valerão ouro na sua dignidade.
Espero sinceramente fazer parte desta lista na vida de alguns! Rsrs
Muito obrigado mais uma vez a todos!
Um grande abraço from África!
Felipe Gomes.
Um comentário:
Muito legal, mesmo, cara. E impressionante ver como nossas experiencias foram em lugares diferentes, mas, se parecem bastante.
Sempre que leio seus textos eu lembro do que passei em Belize, tambem. E muito importante essa troca de experiencias entre voce e a Africa. Sei que esta crescendo ai e que voltara um "gigante", hehe.
Muito legal, forca ai!
Abracao!!!
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